O Rei da Terra do Nunca – Nikki St. Crowe

Nunca li Peter Pan, mas gosto o suficiente da adaptação da Disney para ter assistido à continuação e apreciado a proposta. Também não me incomodo com releituras e novas versões dessas histórias. Faz sentido que existam tantas interpretações diferentes, já que são narrativas que passaram pelo crivo do tempo e continuam despertando interesse.

Mesmo quando o uso dos personagens não respeita completamente a obra original, ainda consigo gostar da proposta se ela for bem executada. A última adaptação que utilizou Peter Pan de forma realmente inusitada e que funcionou muito bem para mim foi o filme Tico e Teco: Defensores da Lei.

Portanto, versões dark ou histórias que transformam vilões em heróis, como acontece em Wicked, não são novidade e podem funcionar muito bem.

Neste caso, porém, deu muito errado.

Em minha defesa, fui completamente enganada pela capa e pela sinopse, que não entregam o que este livro realmente é: um pornô. Aliás, a capa é uma das minhas maiores reclamações. Ela é bonita demais para o tipo de texto que entrega. Se houvesse a clássica foto de um abdômen tanquinho estampada nela, eu saberia exatamente o que esperar da história.

Não sou fã de dark romance, mas já li alguns. O problema aqui não são as cenas de sexo ( não posso descrevê-las como eróticas) nem o “relacionamento” conturbado, se pudermos chamar aquilo de relacionamento. O problema é a escrita.

A história já começa com uma cena de sexo. A protagonista, Winnie Darling, neta de Wendy, leva uma vida miserável, mudando constantemente de cidade ao lado de uma mãe paranoica e aparentemente instável. Não existe qualquer sensação de estabilidade em sua vida, e o sexo surge como uma forma de escape. Até aí, tudo bem, apesar da execução não funcionar.

É inevitável comparar a premissa com Carrie de Stephen King. As duas protagonistas compartilham elementos semelhantes: mães perturbadas e uma ligação com o sobrenatural. A diferença é que, em Carrie, Stephen King constrói cuidadosamente tanto a protagonista quanto o ambiente opressor ao redor dela. Aqui, todos os traumas e dificuldades dessa infância instável são apenas jogados no texto sem qualquer desenvolvimento real.

Winnie convive com a paranoia da mãe, ouvindo histórias sobre como as mulheres da família são sequestradas e retornam completamente enlouquecidas. Ela acredita que tudo isso seja fantasia, mas, ao mesmo tempo, teme acabar tão louca quanto a própria mãe. Até que, um dia, Peter Pan aparece e a leva para a Terra do Nunca.

Nesta versão, Peter Pan não é mais uma criança, e os Garotos Perdidos também não são garotos. Afinal, trata-se de um livro voltado ao público adulto, e, por mais problemático que seja o conteúdo, ao menos a autora teve o cuidado de deixar claro que todos os personagens são maiores de idade. Ufa!

O problema é que absolutamente nada do personagem original parece ter restado aqui. Tudo é resolvido através de sexo; os jogos de poder acontecem por meio do sexo; as relações entre os personagens giram inteiramente em torno disso. Peter Pan, inclusive, parece mais um vampiro genérico: só sai à noite e pode morrer se ficar exposto ao sol.

No fim, a impressão que fica é a de uma obra que usa nomes conhecidos apenas para chamar atenção, sem compreender o que tornava aqueles personagens interessantes em primeiro lugar.

Eu definitivamente não era o público alvo desse livro.

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