O Acordo – Elle Kennedy

Atenção: este texto contém spoilers!
Se você ainda não leu o livro e não quer estragar a surpresa, recomendo voltar depois da leitura. ☺️

O Acordo de Elle Kennedy da série Amores Improváveis é mais um daqueles livros em que gente bonita só anda com gente bonita. Ele traz uma série de situações e personagens clichês, muito parecidos com vários outros do gênero. Não surpreende, mas também cumpre bem o básico a que se propõe.

Logo no início, sabemos que Hannah sofreu um abuso. Ela lida bem com isso… depois de muita terapia, claro. Mesmo estando estável, admite que mudou. Não vai a festas, não aceita bebidas nem de conhecidos, segue uma série de medidas de segurança e evita se arriscar. Ainda assim, superou o suficiente para seguir com a vida, ir para a faculdade e fazer amigos.

Garrett é jogador de hóquei e capitão do time. Como todo mundo reconhece facilmente, ele pode ter qualquer mulher que quiser — e costuma ter. No momento, porém, não tem interesse em relacionamentos sérios. Ele quer focar no esporte e sair da sombra do pai, um astro ainda amado pelos fãs, mas que em casa descontava suas frustrações na esposa e no filho.

Eles frequentam a mesma aula, e enquanto quase todos reprovaram, Hannah tirou a nota mais alta. Garrett, então, basicamente a persegue para que ela aceite ser sua tutora, já que, se não melhorar sua média, não poderá jogar. Eles fazem um acordo: ela aceita ajudá-lo com a matéria, e ele finge sair com ela para que ela chame a atenção de um jogador de futebol americano por quem tem uma queda há algum tempo. Assim, o acordo está feito.

Pode parecer bobo — e é, em certo sentido —, mas funciona dentro da proposta da história.

 

Experiência de leitura

Existe uma escada de qualidade quando se trata de livros e filmes. No topo, estão as obras-primas. No extremo oposto, obras de gosto tão duvidoso que é difícil entender como foram produzidas — e que acabam servindo de incentivo para novos escritores e cineastas: se eles podem, todos podem -, mas a grande maioria das obras acaba caindo ali no meio da régua, sendo que os extremos são mais raros.

Quando pego um livro como esse, não espero uma obra-prima. Espero uma leitura divertida, com drama e romance. Não é muito a se pedir. E o livro entrega o que promete. Cumpre seu papel, e com um pouco mais de esmero que vários romances que vejo por aí.

Quanto às qualidades do texto, ele aborda de forma superficial um tema pesado — o que considero arriscado, pois há casos em que esse tipo de abordagem se torna um desserviço. Como leiga no assunto, não vi grandes problemas na forma como foi tratado. Hannah foi dopada em uma festa e posteriormente abusada. Ela ainda tinha consciência do que estava acontecendo e, ao chegar em casa, os pais logo perceberam que havia algo errado. Eles denunciaram o crime, mas o agressor foi solto. O livro não mostra essa cena, mas a personagem relata: ela fez terapia, teve apoio da família para seguir em frente, mesmo com as marcas que ficaram.

O drama de Garrett, por outro lado, me pareceu menos bem desenvolvido. Ainda assim, não considero isso um grande defeito. O que, de fato, considero o ponto fraco da história é outra questão.

Expectativa x Realidade

Em certo momento, o pai de Garrett tenta chantagear Hannah para que ela se afaste do filho. Inicialmente, ela se recusa — afinal, já conhece o tipo de pessoa que ele é e sabe como Garrett se sente em relação a ele. O pai então alega que ainda sustenta financeiramente o filho e que, caso ela não aceite se afastar, deixará de ajudá-lo.

Num contexto brasileiro, isso já seria complicado. Mas, nos Estados Unidos, onde as faculdades são pagas e eles supostamente estão em uma instituição cara, a situação se torna mais grave. Garrett não conseguiria conciliar estudos, hóquei e trabalho.

No entanto, sabemos — pelo ponto de vista de Garrett — que esse problema não é real. Ele tem uma herança que poderá acessar ao completar 21 anos. Hannah ainda não sabe disso, então o conflito criado é fraco. Como leitores, já sabemos como tudo vai terminar, o que esvazia o drama. Entendo que a herança tenha sido mencionada anteriormente; omitir essa informação depois seria um deus ex machina. Ainda assim, não deixa de ser uma solução conveniente.

Num drama mais realista, em que não houvesse uma saída fácil (como a herança), e os personagens realmente tivessem que fazer escolhas difíceis, será que se sairiam bem? Se eles se afastassem para que ele pudesse terminar a faculdade e jogar profissionalmente — o que seria uma escolha racional —, como lidariam com isso? E se ele optasse por ficar com ela, largar o esporte, trabalhar e conciliar os estudos? Ele se tornaria um amargurado? Ou abraçaria essa nova vida?

O pior, nesse cenário, não seria a escolha em si, mas o fato de, como leitores, não sabermos para onde essas decisões levariam os personagens. E, por isso, é claro, o livro não vai por esse caminho, e nem precisa. Afinal, queremos uma leitura leve e divertida, o que geralmente significa ter um final feliz.

Não posso condenar a autora por seguir por esse caminho. Se eu quisesse um drama com desfecho incerto ou um final dúbio e amargo, teria escolhido outro livro. O Acordo não reinventa o gênero, mas cumpre bem seu papel. E às vezes, é exatamente isso que a gente precisa.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *